segunda-feira, 22 de setembro de 2014

CRÔNICA DO TELEGRAMA E A MANJUBA

Anos setenta, cidade do interior, armazém do Seu Juquinha...
Estabelecimento de comércio de secos e molhados e único na cidade a comercializar manjuba(espécie de peixe pequeno de água salgada).
Gaúcho é o empregado de extrema confiança do Seu Juquinha e também o único funcionário do armazém.
Extremamente zeloso, obediente e "pau pra toda obra", seu único deslize é ser totalmente analfabeto.
Por um erro de cálculo, Seu Juquinha efetua uma compra exagerada de manjubas, que infelizmente o vendedor também não se dá conta, e se vê na obrigação de cancelar o envio indevido da mercadoria.
Naquela época, telefone era artigo de luxo, muito luxo, e as comunicações eram normalmente feitas através de telegrama.
Seu Juquinha, encontrando-se bastante atarefado, escreve o telegrama para pedir o cancelamento das manjubas excedentes, e pede ao Gaúcho para levar aos correios.
Chegando lá, com o dinheiro para pagar a postagem, Gaúcho, informa ao atendente o texto do telegrama:
"Para de mandar manjuba".
No momento do pagamento o caixa lhe entrega troco. Imaginando que não deveria ter troco, Gaúcho chama de novo o atendente e lhe diz:
-Posso corrigir o telegrama ?
Ao que o atendente lhe concede permissão.
Gaúcho então manda acrescentar no texto: "NÃO para de mandar manjuba".
Não restando mais troco nenhum, Gaúcho despacha o comunicado
Algumas semanas se passam, e as manjubas não param de chegar.
Intrigado com o fato, Seu  Juquinha, manda Gaúcho voltar aos correios e lhe diz para mandar o seguinte texto: "Não mande mais manjuba".
De posse do dinheiro e com o texto na cabeça, pois Gaúcho podia ser analfabeto, mas era excelente na decoreba, Gaúcho chega aos correios e procura o atendente e lhe manda escrever o texto.
Ao final, fica sabendo que desta vez, faltou dinheiro para o texto requerido.
Sem pestanejar, Gaúcho refaz o telegrama, retirando uma palavra, para que o dinheiro não falte.
Desta forma o telegrama que segue fica assim: "Mande mais manjuba".
Semanas depois a "desgraceira" foi total, manjuba chegando, chegando e lugar para estocar faltando.
Seu Juquinha, desesperado corre aos correios e pede uma averiguação nos telegramas e descobre os erros cometidos pelo pobre Gaúcho, que toma uma tremenda reprimenda do patrão e é obrigado a receber 10% do seu salário em manjuba, além do que no asilo, nas escolas, na paróquia e até na guarnição policial da cidade, todos comeram manjuba por um longo tempo, cortesia do Armazém do Seu Juquinha.

Denis Cunha
22/09/2014

nota: Todos os personagens são mera ficção.




Um comentário:

  1. Agora além de poesia tem prosa? Oh, trem bão!!! Curti muito!!! Abração!

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